uma carta ao meu pai


hoje reviro baús, encontro postais, fotos amareladas, brinquedos velhos...
registros da nossa história tão ... nossa.

... você trocando minha fralda todo atolado
minha mão cabia na palma da sua
e você me segurava com muita força, um medo paterno de me deixar cair
seu sapato marrom de trabalhar rendia muitas risadas no meu pé tão miúdo
os enfeites da árvore de natal pendurados nos seus óculos e a minha risada ecoando pela sala
o mc donald´s das quartas feiras que eu sempre comia metade e te dava a outra
nossas corridas de bicicleta nas manhãs de domingo
era o momento mais esperado!
eu contava os dias pra te ver...
pra jogar peteca
pra ganhar de você no futebol de botão
pra perder na bolinha de gude
pra torcer pro vasco aos berros vestindo a camisa do botafogo em sua homenagem
pra ganhar mais um carrinho pra minha coleção
era tão bom ser o filho que você não tinha
eu gostava tanto de me sujar no parque
de rasgar meu short depois de levar um belo tombo no meio da rua... e você correndo pra me pegar no colo!
dormir com suas mãos fazendo um carinho meio desajeitado nos meus pés
brincar de ver o desenho das nuvens na estrada pra três rios
contar as estrelas no terraço da vovó antes de dormir
e acordar com os passarinhos na janela dando bom dia
chorar no seu colo com 7 anos pedindo pra você me prometer que eu nunca ia crescer, e você, sem jeito, tentando me explicar que não podia me prometer aquilo...
... eu cresci!
você realmente não podia me prometer o que não poderia cumprir.
em algum momento dessa história nós nos perdemos.
paramos de comemorar a presença do outro
brigamos por tudo... e por nada.
as inúmeras risadas viraram lágrimas complexas
minha mão escorregou da palma da sua
seu sapato ficou largado num canto
o meu herói ficou tão frágil de repente... ele passou a ser humano aos meus olhos
a bicicleta enferrujou
a peteca foi pro lixo
os carrinhos foram doados
meu short virou saia
eu aprendi a ser menina
minha rebeldia exigia sua presença
mas o filho que eu tentava ser tinha chegado ao mundo, e ele precisava tanto de você!!
só eu sei o quanto ele precisava de você... porquê no meu ciúme de não ser o que você queria, eu entendia que ele era!
... e eu precisei tanto de você nesse momento...
os anos se passaram, a menina virou mulher
um pouco sensível e um pouco fria
um pouco carente e um pouco independente
e ela tem tanto do seu herói de infância!!
hoje ela ri com o menino que nunca foi, cuida dele e o ama tanto que nem sabe demonstrar.
hoje o menino tem o mesmo herói que ela...
... e ela entende que o herói é humano, ele também tem suas fraquezas... e o ama ainda mais por perceber isso...
ela segue sua vida tentando resgatar o que se perdeu
com uma saudade imensa do moleque que existia dentro de mim... digo... dentro dela!

(Lara Gay)

8 comentários:

Amores, insonias e aspirinas disse...

lindooooooo...eu chorei

Bitt disse...

Filha. Você me fez chorar como há muito não conseguia. Uma rigidez por trás do sorriso fácil que é pura defesa. Talvez tenha cometido um erro. Anos atrás você dormia ao meu lado quando uma voz me disse: "eu cuido dela". E tem cuidado. Mas não era para eu descuidar. Espero que perdoe a minha presença ausente. Ainda estou aqui e sou de vocês dois. Amo-os igualmente. Ele, o menino que é. Você, a mulher lutadora e sensível que se tornou. Obrigado pelo presente.

Juliana Cintra disse...

nossa, parabens. voce emociona...

Bruna disse...

Ai...imaginava que ia chorar antes de ler...chorei ainda mais quando li o retorno do "destinatário"...me fez lembrar momentos que Não tive com o meu herói...
Triste, bonito, feliz!

Michelly Barros disse...

Preferi não ler... ainda não. Ou sim, vou ler... puro medo... já volto.

Michelly Barros disse...

e agora, uma oração para dormir.

lindo, minha branca.
parabéns
amo vc

lygia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lygia disse...

Lara, até hoje não tinha esta carta a seu pai... que coisa mais linda! quanta sensibilidade, minha filha! confesso que senti uma pontinha de ciúmes... que bobagem, não? beijos, te amo

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